O Povo Xukuru conta ao Coque

Foto: Rafael Andrade

Foto: Rafael Andrade

Ontem, 25, encerramos mais uma atividade do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa – PNAIC, em parceria com o Centro de Estudos em Educação e Linguagens – CEEL, da UFPE; e a Rede Municipal de Educação do Recife. Estas atividades com as escolas também aconteceram nas demais biblioteca integrantes da Releitura.

Neste ano, a Escola Municipal do Coque e a Biblioteca Popular do Coque abriram as portas para conhecermos ainda mais o Povo Xukuru do Ororubá. Foi uma atividade que trouxe muito conhecimento e felicidade, ao conhecer a história desse povo guerreiro que até hoje resistem às investidas dos grandes latifundiários. Foram cinco semanas de atividades de mediação e discussão, que passaram desde o reconhecimento das origens de cada aluno até ir a Serra do Ororubá visitar o Povo Xukuru.

Foto: Rafael Andrade/ Crianças lendo livros indígenas

Foto: Rafael Andrade/ Crianças lendo livros indígenas

No primeiro dia de atividade, as professoras Erica Montenegro e Rosângela  Francisca passaram um vídeo “Pindorama”, do Palavra Cantada e, a partir do  vídeo, desenvolveram uma discussão sobre a imagem mitológica do índio,  desmistificando o padrão indígena: usar pena, andar nú e ter cabelo liso. Logo após  houve a leitura do conto “História de nossa gente”, o livro possui o mesmo título do  conto, por autoria de Sandra Lane e ilustração de Flávio Fargas. O conto fala sobre  a mistura de raças e a diversidade de cores do povo brasileiro; e a exploração da  mão-de-obra indígena e africana pelos portugueses.

A partir do livro e do vídeo abriu-se espaço para a discussão dos materiais com os  alunos. Foram levantadas perguntas sobre como os índios vivem hoje, o problema  das demarcações de terras, algo bastante parecido com a vivência dos alunos do  Coque, já que o bairro é bastante cobiçado pelo mercado imobiliário e  constantemente vivem sob a ameaça de perderem suas casas. Essa primeira  atividade gerou muita curiosidade por parte dos alunos sobre a cultura indígena,  principalmente como são os povos indígenas que vivem no Estado de Pernambuco.

No fim da primeira atividade, cada criança pegou um livro indígena e fizeram uma leitura em silêncio, para conhecer um pouco mais dos contos.

Foto: Rafael Andrade

Foto: Rafael Andrade

Na segunda atividade houve uma dança circular com as crianças, com a música:

“Pisa ligeiro,

pisa ligeiro,

quem não pode com a formiga

não assanha o formigueiro”

Com a dança, as crianças ficaram mais animadas para ouvir as histórias. As professoras Erica e Rosângela prepararam uma exposição sobre a história dos negros e dos indígenas no Brasil, trazendo, para isso, a história do Quilombo do Catucá, que fica situado na Floresta do Catucá, entre Recife e Goiana. O quilombo tem um forte sincretismo religioso indígena e africano, e a professora trouxe essa questão para o espaço da biblioteca para falar das crenças, principalmente do ritual da Jurema, que é uma tradição mágica religiosa nordestina em que os os participantes bebem um líquido retirado da planta Jurema. Essa tradição tem diversas influências, sendo:  da feitiçaria europeia à pajelança, xamanismo indígena, passando pelas religiões africanas e pelo catolicismo popular.
Em seguida, houve uma atividade de reconhecimento de origem. As crianças se olharam no espelho e diziam o que estavam vendo, se descrevendo. Foi uma atividade linda, pois esperávamos que a maioria se identificassem como brancos ou pardos, mas quase todas as crianças se identificaram como negras.
Foto: Rafael Andrade/ Objetos ritualísticos indígenas

Foto: Rafael Andrade/ Objetos ritualísticos indígenas

Na terceira atividade, houve uma apresentação do Povo Xukuru,  povo que habita a Serra do Ororubá, em Pesqueira – PE. A  professora Emília, formadora do CEEL, iniciou a atividade pedindo  para que os alunos fossem até às mesas. Uma mesa tinha  objetos  indígenas e na outra, fotos de crianças indígenas  brincando na  rua. Logo após essa abordagem, Emília mostrou no  mapa onde se  localiza o território Xukuru e falou das constantes  lutas do povo  para a reconquista de suas terras, que outrora fora  invadida pelos  fazendeiros brancos.

As crianças conheceram as figuras do Cacique Xicão, grande guerreiro indígena morto pelos fazendeiros, enquanto lutava pelas terras; a figura de Dona Zenilda, mulher do Cacique Xicão e uma grande líder do povo Xukuru; e conheceram também a figura do Cacique Marcos, atual cacique e forte líder do povo, que até hoje luta para a manutenção da demarcação de suas terras.

Foto: Rafael Andrade/ Ridivânio, morador do Coque e Xukuru contando historias para as crianças.

Foto: Rafael Andrade/ Ridivânio, morador do Coque e Xukuru contando historias para as crianças.

A quarta atividade se deu na Biblioteca Popular do Coque. Era a primeira vez de algumas crianças no espaço da biblioteca e foi um momento de muita felicidade para todos, pois iniciamos com a contação de duas histórias “A Dona da mata” e “As tochas da Pedra do Vento”, dois contos do livro “Meu povo conta”, de organização pelo Centro de Cultura Luiz Freire e os povos indígenas de Pernambuco. Os dois contos apresentados às crianças são do povo Xukuru. A primeira conta a história da Comadre Fulozinha, um espírito encantado que protege as matas; a segunda conta a histórias de tochas que aparecem de noite nas aldeias, que são espíritos apaixonados que vagam pela noite. As crianças ficaram empolgadas com os contos e começaram a contar suas próprias histórias, principalmente sobre a Comadre Fulozinha. Um aluno contou que já ouviu o assobio da Fulozinha em um terreno abandonado perto de sua casa. Todos começaram a rir.

Logo após os contos, Ridivânio, morador do Coque e Xukuru, contou histórias da resistência do seu povo. Ele trouxe alguns objetos: a barretina, o memby, os colares e o maracá. Falou sobre a utilidade de cada um. As crianças fizeram muitas perguntas, tais como: “de que as crianças brincam”, “se eles têm celular”, “como eram as casas deles” etc.

Foto: Rafael Andrade/ Encontro na Serra do Ororubá

Foto: Rafael Andrade/ Encontro na Serra do Ororubá

baixa 6-2

Foto: Rafael Andrade / Encontro na Serra do Ororubá

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A quinta atividade foi de muita magia e agradecimento. O povo Xukuru abriu seus braços para nos receber e contar sua história. Levamos as crianças, professores, mãe e avô de alunos para conhecer de perto os indigenas Fomos recepcionados com o Toré, dança ritualística do povo, em que pedem as bençãos dos Encantados em suas atividades. As crianças, professores e familiares foram convidados a entrar no círculo e dançaram o Toré junto com o povo Xukuru.

Foto: Rafael Andrade / Crianças dançam o Toré

Foto: Rafael Andrade / Crianças dançam o Toré

Baixa 7-2

Foto: Rafael Andrade / Crianças dançam o Toré

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltamos da Serra do Ororubá encantados e com bastante conhecimento sobre a cultura indígena e, principalmente, sobre o Povo Xukuru. Muitas histórias contadas nas escolas e nas rodas de mediação, são histórias de povos indígenas do Norte do país, deixando de lado a riquíssima cultura de povos de nossa terra. A desmistificação da figura do índio, da cultura e religião desses povos, garante um maior conhecimento e, com isso, um maior respeito e admiração a uma cultura tão riquíssima, que faz parte da formação do país. Ainda hoje esses povos sofrem com a perseguição, não só religiosa, mas uma tentativa de destruírem suas terras para atender a um mercado cada vez mais consumista.

A Biblioteca Popular do Coque apoia a luta indígena por suas terras e a garantia de mais demarcações. Numa situação política conturbada em que vivemos, essas atividades só vieram a fortalecer o apoio e a luta.

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